Breve história da alfaiataria masculina.

O conhecimento e a arte da alfaiataria, do ato de cortar e coser tecido, desenvolveu-se lenta e gradualmente na Europa entre os séculos XII e XIV até depois se espalhar e ganhar o mundo.

Durante a Idade Média, a roupa em geral encontrava-se associada ao ato de esconder o corpo e compor as indumentárias usadas nos rituais religiosos. Com a Renascença começou-se a acentuar a forma humana no vestuário. A roupa larga e sem forma, aquele que foi o uniforme padrão de todo o período medieval, tão facilmente construído de uma ou duas peças de pano, foi encurtado e apertado, eventualmente cortado, montado e cosido, na tentativa de dar destaque aos contornos do corpo humano. Este foi o nascimento da Alfaiataria e, de fato, da Moda.

Até esta altura o pano tinha sido a característica que distinguia o vestuário, e aquele que o vestia era, em grande parte, o responsável pelo design e, na maioria dos casos, pela produção das suas próprias roupas. Mas, gradualmente, o alfaiate foi assumindo uma importância equivalente á do tecelão, chegando por fim a ultrapassá-lo. Mestres alfaiates tornaram-se responsáveis por satisfazer as necessidades de vestuário da sociedade, e a alfaiataria tornou-se altamente especializada, complexa e cuidadosa guardiã da arte da costura.

À medida que as cidades foram crescendo, tornando-se impérios de poder, também a moda seguiu esse caminho. Primeiro a Itália, depois Espanha e França tornaram-se centros de moda em consonância com o poder, riqueza e influência desses impérios. A Itália atingiu o seu grande florescimento durante a época de Miguel Ângelo, seguida pela Espanha, no princípio do século XVII. A França atingiu o topo da moda durante o reinado de Luis XIV (1643-1715), quando os jovens bem-vestidos de toda a Europa se reuniam em Paris, para a renovação do seu guarda-roupa. Por volta da metade do século XVII os homens desistiram de usar o “doublet” (casaco assertoado e apertado), o “Hose” (peça de vestuário usada com o doublet e que consistia numa meia-calça que chegava até a cintura) e a “cloak” (capa), tendo começado a usar casaco, colete e “breeches” (calças que terminavam normalmente acima do joelho), as 3 peças de vestuário que podemos começar a identificar com a forma de vestir atual (o que chamamos de terno). Do outro lado do canal da Mancha, os ingleses não só tinham abandonado o “doublet” e a “hose”, como ultrapassaram rapidamente a fase da roupa ricamente bordada “decretada” pela corte Francesa. Note-se que tinham conseguido sobreviver uma guerra civil amarga, mas democratizante (l642 – 1649), a qual entre outras coisas tinha posto em questão os veludos e brocados, as sedas e os cetins, as cabeleiras empoadas, entre outras ostentações do código de vestuário da aristocracia Francesa. Dois séculos mais tarde, Oscar Wilde, diria que os puritanos e os cavaleiros que lutaram essa guerra, estavam mais interessados nos seus hábitos, que nas suas convicções morais.

Os ingleses afastaram-se do seu altamente decorativo e delicado estilo cortesão e assumiram formas mais práticas. O vestuário dos fidalgos rurais e os da nova classe mercantil que nascia durante o século XVIII, tornou-se progressivamente menos belo e requintado, tornando-se mais sombrio e sóbrio. Nas primeiras décadas do século XIX a sobriedade (pelo menos no vestir) começou a permear inclusive os círculos mais íntimos da corte, de tal forma que rei, rainha e princesas se vestiam de forma idêntica á dos seus súbditos. Em meados do século XIX, chapéus altos, chapéus de chuva e “frock coats” (casacos a 3/4) estavam largamente em uso, todos em negro brilhante.

Os alfaiates ingleses, particularmente os londrinos, dominavam a moda. Em primeiro lugar, porque os ingleses tinham evoluído para uma forma de vestir masculina, que era uma mistura subtil de fidalguia rural, com um toque de roupa desportiva e um toque de burguesia comerciante, produto da tremenda vaga da Revolução Industrial. Depois, o tipo de roupa usada em meios aristocráticos não tinha sido desenhado a pensar em funcionalidade, antes com preocupações de decoração, tecidos e cores.

Quando o afastamento da ornamentação e ostentação começou a ocorrer, este tornou-se no primeiro critério para roupa masculina. Hoje damos como dado adquirido o conforto no vestuário, mas a idéia do “encaixar” na roupa masculina é um conceito relativamente recente. Note-se que é uma idéia que exige grande habilidade para ser posta em prática. O alfaiate inglês foi treinado para usar tecido á base de lã, e após anos de experiência e prática, desenvolveu técnicas para “moldar” a roupa ao corpo sem ter que duplicar exatamente as formas verdadeiras do utilizador. Em resumo, o alfaiate podia agora desenvolver uma nova forma de estética no vestuário; podia imitar o corpo humano e ao mesmo tempo em que o “melhorava”, o idealizava! Já não era uma questão de usar jardas e mais jardas de brocado de seda.

Começava ser desenvolvido o “sack coat”, tipo de roupa mais próxima do tipo de costume usado hoje. Embora considerado excêntrico na Inglaterra que adora formalidades, por volta de 1870, o sack coat dos britânicos se tornou amplamente usado e caiu nas graças dos homens elegantes a procura de roupas mais práticas. Nos Estados Unidos, o sack coat formatou o estilo americano, ficando conhecido e famoso como sack suit ou, mais tarde, “Brooks Brothers natural sholder” (ilustração abaixo) – ou seja, ombros menos estruturados do que os do estilo inglês.

Os homens tornaram-se gentis-homens (gentleman), em si mesmo um conceito do recente século XIX, e perderam a disposição para comportamentos chamativos em favor de discrição, simplicidade e perfeição de corte. Houve tremendas inovações nos últimos cem anos em termos de moda e da arte da alfaiataria. As máquinas de costura fazem o trabalho de costurar, produzindo costuras direitas melhor do que se fossem feitas a mão. Novas tecnologias na fabricação de tecidos, produziram tecidos mais confortáveis, permitindo a adaptação da moda a estilos de vida mais despreocupados.

Contudo a alfaiataria é, e continuará a ser, uma arte. O alfaiate ainda crê em criar roupa de forma personalizada, como sempre o fez. Desde a invenção do pronto-a-vestir e do fast fashion, em meados do século XX, das roupas feitas em série, que o desaparecimento do alfaiate tem sido predito. Contudo, os artesãos têm conseguido sobreviver e mesmo prosperar, demonstrando a obvia existência de algo único e pessoal nas nossas vidas, nesta época do insípido e da produção em massa. Os alfaiates podem ser considerados os representantes do produto único e de qualidade. Essa é no fundo a marca da sua tradição.

Por: Tarcísio L. Louzada

Referência bibliográfica: G. Bruce Boyer. Elegance: A Guide to Quality in Menswear.

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